Dois palavrões

Queria me pronunciar, como profissional da palavra, sobre o uso enviesado e segregacionista que certos termos e expressões têm adquirido na arena pública brasileira.
Boa parte de minha formação humanística (sou tradutor-intéprete, graduei-me em filosofia e fiz mestrado em teoria literária; minha principal profissão é a de publicar livros) fizeram de mim uma pessoa bastante atenta às palavras; aos modos de empregá-las, aos seus contextos, aos interlocutores envolvidos.

O que me levou a escrever esse pequeno texto – um misto de posicionamento e convite ao diálogo – foi justamente o uso surpreendente, para não dizer espantoso, de duas palavrinhas numa entrevista de jornal. Vociferadas com violenta indignação, elas ganharam volume e peso: viraram xingamentos.

Vamos ao caso. Pautado pela hipótese de que um perfil do Twitter teria sido falseado para acolher impropérios na recente denúncia ao sexismo no ramo dos gamers, o jornalista da Folha de S. Paulo, Yuri Gonzaga, entrevistou o suposto acusado de tê-lo feito, Mateus Prado Souza (“Gamers e feministas se enfrentam ao redor do caso ‘gamergate’ , 11/11/2014). Não vou entrar no mérito de quem fez ou deixou de fazer isto ou aquilo em segredo. Atenho-me às palavras, às declarações que se franqueiam à opinião pública.

Disse o entrevistado:
“Anita [Sarkeesian] não é apenas feminista, é moralista. O feminismo se torna um problema quando vira moralismo”.

São duas frases curtas, simples e diretas. Qualquer estudante qualificado do Fundamental II saberia analisar sua sintaxe. As frases não oferecem, portanto, nenhuma dificuldade formal em se fazerem entender.
A grande falácia que essas poucas dúzias de letras me parecem esconder é antes de ordem argumentativa e semântica. (Que me corrija os equívocos o querido e polêmico professor de lógica, assim como qualquer outro leitor.)

Estilisticamente, o primeiro período da declaração poderia ser descrito como frase graduada: um crescendo, digamos. De acordo com essa frase, de algum modo, “ser moralista” é mais do que “ser feminista”. Mais o quê? mais parcial, mais sectário, mais retrógrado? Como quem dissesse: o feminismo é um saco, mas em si mesmo tolerável; só não me venham querer moralizar o debate em nome dele, isto não se admite…

Do ponto de vista semântico, é de ressaltar que o termo “moralismo” foi aqui usado como índice de um discurso subentendido (como no dito popular: “A bom entendedor, meia palavra basta”).

Nas frases de Prado Souza, as palavras não ditas, isto é, o contexto a que somos evidentemente remetidos tem a ver com a tão repetida expressão que conjuga a “moral” aos “bons costumes”. Sou o primeiro a admitir que as piores violências foram perpetradas apelando-se a essa categoria de desqualificação.

Isto não tem nada a ver com a argumentação – indefensável porque absurda, e nada mais – de que a moral seja um recalque, uma herança indesejável de que tenhamos de nos livrar para vivermos plenamente o século XXI.
Temos é que negociar, por meio do diálogo e da diferença, quais parâmetros seriam fundamentais, inalienáveis, para vivermos em sociedade. Isso diz muito a respeito do modelo de sociedade que cada um de nós propõe e projeta, todo dia: na imprensa, no trabalho, na conversa de esquina.

A moralidade, pra mim, é respeitar o ser humano – seja quem for. Basta isso.

Vivo, como já se disse, na maior cidade da América do Sul. De trás do volante de meu carro, cruzo com freqüência a Av. Rebouças. Num desses cruzamentos, ladeado de terceirizados “apoio ao trânsito” que nada mais fazem do que observar o movimento, há uma faixa de pedestres que simplesmente ninguém respeita. Pra falar a verdade, passando nos últimos meses por ali, vi um ou dois motoristas freando (como faço eu) para os ressabiados transeuntes que se arriscam a atravessá-la. Ainda assim, não conheço outra pessoa que, nessa ou noutras conversões equipadas com faixa de pedestre da cidade de São Paulo, freie seu veículo para que um morador de rua possa completar a travessia da avenida sem se sentir ameaçado. Para mim, um homeless é um ser humano não menos que a perua dos Jardins o é. Se alguém também pensa assim, se vocês estão aí, por favor apresentem-se, sejamos amigos.
Não me postulo o paladino da cidadania por conta disso, mas não posso deixar de afirmar e defender meu ponto de vista (nesse e em muitos outros casos, ele até coincide com a legislação vigente).

O que se entende por moral, no Brasil de hoje? Demonizar o motorista, e sistematicamente varar de bicicleta os faróis vermelhos? Ameaçar formandas em Medicina com a impossibilidade de realizarem residência em hospitais da cidade, caso tenham a pachorra de denunciarem flagrantes e repetidos episódios de assédio e estupro em sua Faculdade? Blindar espancadores em nome da honra? Ressaltar a centralidade da família e do matrimônio, mesmo quando fazê-lo não é mais que um argumento da hipocrisia – a mais covarde maneira de conciliar as aparências com o desejo?

Desculpem, recuso-me a seguir uma cartilha dessas. Mais que isso: seria incoerente considerar a mim mesmo um cidadão e deixar de denunciar a falsidade desse discurso e dessa conduta. Se defender a prioridade do pedestre ao atravessar a corretamente a faixa é “muita viadice” (como escutei outro dia na Praça Panamericana), nesse caso, sou viado desde pequeninho, desde a barriga de mamãe.

Não nego, tenho meu lado misantropo. Muitas vezes, além disso, sou uma pessoa difícil de se conviver. Mas não estou sozinho nesse planeta, nem queria estar. O nosso mundo só faz sentido com o Outro. Esse (des)encontro pode gerar disputa, mas também diálogo. Prefiro a discordância à guerra, sem sombra de dúvida.

Tenho uma amigo que não gosta de Rachmaninoff – considera-o exibicionista como um Paganini. Eu gosto tanto de um quanto de outro (já ouviram as sonatas para violão deste último?). E então? Por acaso vou afirmar que ele está enganada, por exemplo recorrendo à minha mais ou menos sólida formação musical? Apelando para tecnicalidades do tipo “mas note-se o jogo de instabilidade do contorno melódico contra o ripieno blablablá”? Bullshit. A vida é curta. A gente devia prestar mais atenção às coisas essenciais, e menos a picuinhas.

Responda rápido, sem pensar: o que é o contrário de moral?

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Sobre Bruno Berlendis

Gourmand: adj. 1. Gros mangeur ; Qui aime la bonne cuisine, mange par plasir.
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2 respostas para Dois palavrões

  1. Laura Bacellar disse:

    Gostei. Absurdo considerar tanto feminismo quanto moralismo insultos, e bem parte de um modo de vida no qual o outro não existe, ou existe apenas para ser capacho.

  2. mariejoana disse:

    Respeito à sanciencia de todos os seres! Basta à alienação!

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