Quando o popular vira pop

por Bruno Berlendis

Esse debate que andou-se aí discutindo pelas semanas passadas me sugere pontes por umas idéias quase desconexas… São na verdade duas ou três observações sobre assuntos bem distintos. Me ocorreram há meses, pretendia (e pretendo) traçar, para cada uma, um encaminhamento diferente. Talvez, como um estágio de maturação, escrever de antemão sobre elas, assim mesmo misturadas, possa trazer algum proveito. Não vou fazê-lo num único post; talvez em dois ou quatro.

O Sainte-Beuve, cujo artigo/manifesto acabei por lembrar ao responder ao Marcello Stasi (ver post anterior), poderia servir de entrada para esta salada de frutas.

Charles-Augustin Sainte-Beuve (1804-1869) foi um dos críticos literários mais influentes de seu tempo, ali pela metade do século XIX francês. Solta o verbo na literatura de folhetim, que vinha então galgando sucessivos êxitos de público (veria-os mais ainda), nesse texto de 1839. O título já prenuncia a virulência – ao mesmo tempo o refinamento – de seu ataque: Sobre a literatura industrial. Quem tenha interesse, leia francês e por acaso não o conheça, não deixe de consultá-lo: sintetiza em poucas páginas um campo de argumentos que não perdeu a atualidade e não deixa de ter lá seu parentesco com alguns aspectos da discussão, em nossos dias, sobre difusão da cultura e o papel social da arte (um dos links existentes: Revue des deux mondes, volume 7, 1839, pp. 549-562). O contato com esse texto me foi instigado pelo belíssimo livro&pesquisa de Marlise Meyer, Folhetim: uma história (Companhia das Letras, 2005).

Em Sainte-Beuve – como cá, na recente mobilização desencadeada pelo Machado-acessível – salientam-se alguns nós do que é percebido como um barateamento da cultura. A literatura, então, tinha saído dos livros e tomado de assalto os jornais para escancarar uma essência de mercadoria, de funcionalidade enquanto produto, o que aos olhos de tantos conflita ou mesmo extingue a dimensão verdadeiramente artística na criação literária. [Nota: Ainda faltam quase cem anos para a dita “turma de Frankfurt”… nem o Marx havia desenvolvido seu viés teórico, à época.] Para garantir esse direito (exclusivo) da – e à – alta literatura é que o crítico sai a campo.

Na retórica de Sainte-Beuve, e também nos nossos dilemas brasileiros, o que se denuncia é uma falsa e perniciosa instrução oferecida às grandes camadas da população. (Essas pessoas passam a ser pensadas e tratadas como receptores, consumidores, enfim comiseráveis; como objetos.) No Brasil de hoje, dizemos ser preciso enfrentar os dilemas quanto à “formação do hábito da leitura”; para Sainte-Beuve, uma das grandes questões da sociedade francesa, embora não bem com estas exatas palavras, era a da formação do gosto.

Nos limites da comparação, porém, percebemos um corte, uma inversão de pólos.

Hoje nos batemos sobre quais seriam os mais eficazes projetos e ações para levar progressivamente novos leitores ao hábito de ler, e mantê-los lá – e quanto a isso um partido, no qual parece que eu esteja incluído, argumenta que certos formatos detratados como “barateamento” possam sim ajudar com alguma coisa.

Para Sainte-Beuve, a banalização da literatura selava o caminho da mais generalizada catástrofe cultural. Eis um exemplo cabal: “É à literatura impressa, particularmente à de ficção – aos livros antes suscetíveis de entrarem em voga, e gradativamente a todas as obras novas – que o mal acometeu profundamente, na forma que [aqui] denunciamos. Sobretudo de dois anos para cá, ninguém vende mais: a livraria agoniza” (p. 556; a tradução é bastante livre).

Sim, admito, citei justo esse trecho também por provocação: em nossos dias, é tão freqüente quanto inconsensual diagnosticar de que males sofra o ponto de venda – e também quais desvantagens estariam implicadas no formato do que se procura vender. Já no vaticínio do grande crítico do Romantismo francês, a literatura barateada dos folhetins terminará por contaminar irreversivelmente todos os estágios e agentes do ciclo cultural-econômico do Livro: não apenas o público (os leitores) e os mediadores (os livreiros, os veículos, os editores) como também os escritores. O adjetivo “barateada” reúne, numa visada proto-materialista, todo o seu poder: “A situação dos jornais piorou notavelmente depois da introdução da dita imprensa de quarenta francos […] Os jornais, por causa dessa baixa de preço, desse aumento de formato, ficaram cada vez mais dependentes do anúncio: ela [a imprensa, subentende-se] perdeu o que restava de pudor, se é que tinha algum” (Sainte-Beuve, p. 555). Pulando-se algumas linhas e invertendo outras, palavras como essas poderiam ter saído de um artigo ou editorial da atualidade.

Pois bem: esse contexto de diálogo é que eu gostaria de sugerir… para afinal chegar, nem que seja como teaser, a um dos pontos acenados no início deste post. Quem sabe depois desenvolvê-lo, se houver algum sentido nisso.

É mais ou menos o seguinte. Em primeiro lugar, se em outros tempos e círculos sociais foi menos conveniente gastar latim com obras “populares” ou “popularescas” em registro de alta cultura, há décadas estudá-las ganhou um status emancipado. Isto é: direito de existência e, mais do que isso, interesse nas ciências humanas e cognitivas. Esse tipo de objeto aliás contribuiu para a formação de novos campos disciplinares, como dos cultural studies. Até aqui, zero controvérsia. A pergunta que me intriga: quanta distância – temporal; sociológica/antropológica – é preciso haver para sublimar o popularesco em um interesse crítico? Estou fazendo essa consideração a partir de uma observação sobre mim mesmo.

Sou o tipo de cara que nenhum amigo gaguejaria em chamar (fosse este o vocabulário) de 12-inch – um apelido entre tantos que o Ringo Starr encontrou para sacanear o produtor, George Martin, por identificá-lo aos consumidores de LPs de música clássica. (A expressão, é óbvio, só funciona por oposição aos singles dos então descolados roqueiros. O irônico – e promissor – é que a interação de uns, membros da banda de rock, e do outro, o 12-inch, findaria por revolucionar o próprio formato LP, como virou costume dizer, a levá-lo a um status de objeto de arte). Sou fascininado não só pelo objeto de estudo de Marlise Meyer – a criatividade “industrial” do folhetim francês e inglês da segunda metade do séc. XIX –, como sobretudo por um fenômeno estreitamente relacionado a ele, bem antes transformado em assunto de acalorados debates: o desenvolvimento de novos gêneros dramático-musicais como o melodrama, o pastiche, o vaudeville…

Qualé o sentido de descabelar-se de um lado entre bibliotecários sudoréticos para ganhar acesso à partitura dum espetáculo de teatro popular de 200 anos atrás (como da lead canção e da música incidental que Alexandre Picciní compôs para o melodrama Le vampire, de Nodier et alii : ainda não as consegui, e ainda o quero) – e, de outro lado, torcer o nariz empinado pelo vazar-se da enésima primeira canção que hoje busca bombar no rádio? Por que (pra mim pelo menos) uma fomenta justificável curiosidade e outra provoca incontidas reações de mau-humor? Talvez a repetida exposição e super-exposição a uns e outros modelos da produção cultural tenham a ver com isso, “A melhor banda de todos os tempos da última semana”. De se perguntar por que apenas três ou quatro soluções constituam 96% das cadências tonais que incautamente escutamos hoje em dia… Contraponto: numa pesquisa que concluí às vésperas de 2014, a-d-o-r-ei analisar, em passagens ponderada e infelizmente encurtadas, a seqüência reveladora de “plágios” e omissões nas adaptações do romance Dracula aos palcos sem dúvida populares e mercenários dos anos 1920-1930 (fundamentais, para isso, os livros editados por David Skal). Donde intuímos novos sentidos para o título “Revista dos dois mundos”, como do periódico que contém o artigo de Sainte-Beuve.

É inegável que Charles Nodier, bem ele, teve um papel preponderante: senão nos temas & rumos da produção teatral dos grandes centros europeus dos anos 1820, certamente no meu interesse por eles.

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Sobre Bruno Berlendis

Gourmand: adj. 1. Gros mangeur ; Qui aime la bonne cuisine, mange par plasir.
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