Livros : ler, julgar ou proibir? (Horizontes)

Fui convidado a participar do programa Metrópolis, da TV Cultura, para discutir a recente polêmica em torno do projeto Livro e Leitura para Todos, que adaptou obras clássicas da literatura brasileira no intuito de torná-las mais acessíveis a um público pouco experiente na leitura de livros. Sobraram-me frases inconclusivas e cotovelos falantes… não soube articular as ideias no timing pressuposto por um programa televisivo. Os mais ressabiados enxergaram uma postura tendenciosa. Meus caros, como disse a vocês, acho esse juízo meio persecutório. Nada disso, não se enganem: pura inépcia minha.
Não sei se minha opinião interessa ou não a alguém; vou tentar expô-la novamente, nem que seja para os amigos e simpatizantes que pouco compreenderam minha afanada gesticulação na tevê.

Vou destacar três aspectos que, ao meu ver, ajudam a contextualizar esse incômodo – e até certa indignação, expressa aqui e ali – que veio à tona na semana passada.

Todo livro tem um público em vista.
O primeiro ponto é a pouca clareza do que seja e principalmente do que deva ser uma “adaptação literária”. É um assunto que eu talvez tenha conseguido expor um pouco menos atabalhoadamente na conversa com Manuel da Costa Pinto e Alcides Villaça.

No que diz respeito a essa clareza, com efeito, não foram felizes os tais livros publicados sob a direção de Patrícia Engel Secco (e não pessoalmente adaptados por ela, como enganosamente tem-se afirmado). Os livros não declaram com evidência, abertamente, que contêm um texto derivado, o que é muito grave. O desavisado vai demorar a perceber que aquele não é o original… se é que vai se dar conta disso. O evocado leitor-não-letrado (parodiando a declaração de Secco) terá de chegar à página 74 no Machado ou 145 no Alencar, e ainda por cima guardar interesse para conferir as miúdas das informações técnicas, onde finalmente se esclarece tratar-se de um “texto facilitado para incentivo à leitura”. Na capa e no cólofon, os livros declaram conter textos de Machado e Alencar, respectivamente: o que é uma inverdade.

Pruridos à parte, confesso que, do trecho que cheguei a examinar do Alienista facilitado (escolhi aleatoriamente o capítulo 9, “Dois lindos casos”), não encontrei nada que me despertasse uma fúria purista conservadora. Percebem-se trocas de vocábulos em relativa sinonímia, umas poucas inversões de substantivo/adjetivo etc. Em termos gerais, pelo menos nas passagens que me prestei a ler, preservou-se a ordem frasal de Machado, não se omitiu nenhum passo.

Um exercício hipotético: se estivéssemos diante de uma tradução – uma atividade que sempre tem um determinado público em vista, sejam os seus critérios explícitos ou não –, o texto desse capítulo do Alienista facilitado pareceria relativamente fiel ao original. Quando vertemos um texto literário de uma língua para outra, temos o claro propósito de levá-lo à compreensão de um determinado público ideal (e idealizado) ao qual toda tradução se dirige. Há sempre mais de um modo de fazê-lo, aí está a graça. E não existe tradução perfeitamente transparente: é simplesmente impossível varar o hiato entre duas realidades histórico-culturais sem fazer opções, e estas estão sempre sujeitas à crítica. Nesse sentido, poderíamos buscar considerar o recente pseudo-Alienista como se fosse uma “endo-tradução” do Machado… Digo isso, repito, baseado apenas numa leitura do capítulo IX. O professor Alcides Villaça, que leu o livro por inteiro, me garantiu ter encontrado coisas bastante escabrosas, de má interpretação de texto, mesmo.

Saindo do particular (esse caso do Machado) para o geral – a pertinência ou impertinência de adaptações literárias: pessoalmente, seja na condição de editor, seja na de alguém que se interessa pela produção e circulação de bens culturais, acho importantíssimo haver a gama mais variada imaginável de possibilidades de leitura para o grande público. No mundo inteiro oferecem-se a leitores iniciantes livros no formato easy reader: versões reduzidas e simplificadas de obras notórias, no mais das vezes destinadas ao ensino de idioma estrangeiro.
Há inúmeros outros casos em que a adaptação busca se adequar a uma dada faixa etária – enfim, trata-se sempre de dirigir-se a determinado recorte de público. Exagerando um pouco, no limite, a versão inglesa de Alexander Pope (1668-1744) para a Ilíada poderia ser considerada mais uma adaptação do que uma tradução no sentido estrito; embora Pope não facilite Homero, muito pelo contrário… Defendo ferranhamente o direito de existência de todos os tipos de publicação – o que é diferente de endossar os resultados de todas as iniciativas localizadas, inclusive das menos bem resolvidas.

Política de Estado e iniciativa privada.
O segundo aspecto que acende nossos ânimos – especialmente nesta conjuntura social de 2013/2014 – é a interação entre iniciativa privada e as políticas públicas para a difusão da cultura. Se já parece um absurdo “assassinar Machado” (como se disse), imagine fazê-lo com dinheiro público, oriundo de renúncia fiscal!

Não vou me deter em julgar um caso particular, mas sim buscar refletir sobre o contexto de fundo. O que está em jogo é o letramento daquele enorme contingente de nossa população que é formalmente alfabetizado, mas que tem sérias dificuldades em compreender um texto escrito, qualquer que seja.

O fato é que não será possível dar qualquer passo concreto sem o concurso destas duas vertentes, o público e o privado. É só no encontro de iniciativas independentes com políticas públicas bem discutidas, bem planejadas e bem implementadas que há possibilidade de progredir. E não existe receita que impeça eventuais desencontros ou trombadas (este parece ser bem o caso, aqui).

Ora, não quero parecer otimista além da conta, mas pratica-se no Brasil uma série de ações que apontam para a efetiva existência de um política pública do letramento. Entendo “política” aqui no sentido de policy. No âmbito federal, ela deu mostras de não estar estreitamente vinculada a esta ou aquela gestão, pois vem sendo pensada e repensada há diversos mandatos. Existem descontinuidades aqui e ali, é verdade, uns erros e uns acertos, mas o desenho geral permanece e tende a ser melhorado, o que é muito saudável. Arriscaria dizer que, para além de políticas localizadas de governo, algumas delas configuram política de Estado.
Um exemplo de importante instrumento de ação na educação básica é o Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE), concebido pelo Ministério da Educação e executado pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação. É preciso admitir que, nesta primeira década de existência, o PNBE contribuiu ativamente para que a iniciativa privada viesse a ofertar tais e tais tipos de produtos editoriais – consequentemente, ao mercado como um todo. Seriam linhas editoriais que, na avaliação dos responsáveis pelo PNBE, contribuiriam para o avanço do letramento em diversas etapas da formação escolar, da Educação Infantil à Educação para Jovens e Adultos.
Não tenho dúvida de que a (nem tão recente) onda de adaptações de clássicos da literatura para HQ no Brasil está diretamente relacionada a programas como o PNBE, que solicitou explicitamente às editoras que criassem e oferecessem tais produtos ao crivo de sua comissão de pareceristas. Também a essa política pública devemos, em grande parte, a vasta e diversa oferta de adaptações literárias em outros formatos (reconto, romance juvenil, peças teatrais e assim por diante).

A interação entre interesse público e interesse privado não está livre de vícios e deturpações, porém ela não apenas é necessária, como é a única saída razoável. Nosso modelo pode não ser perfeito, mas é seguramente melhor do que uma educação baseada em conteúdos panfletários e fortemente carregados de ideologia, como se tem visto em certas plagas da América Latina. Portanto, antes de condenar generalizadamente a interação público-privada na questão do avanço letramento no Brasil (mas sem livrar-se dos necessários escrúpulos), é preciso atentar para a urgência crucial de esforços bem coordenados nesse sentido.

Dize-me com quem andas.
O terceiro aspecto que eu ressalto, mais provocativo, tem a ver com o papel que Machado de Assis assumiu no universo simbólico da cultura e da identidade brasileiras. Ou melhor: a imagem sacralizada que se construiu em torno dele. Não se mexe impunemente com Machado, e quem se arriscar a fazê-lo há de sofrer o justo castigo.

Querem uma prova disso? Basta contar, nas mídias dos últimos dias, quantos jornalistas, profissionais do livro e estudiosos se pronunciaram a respeito do trabalho que se fez em cima do Machado – e quantos sobre o José de Alencar, cujo romance A pata da gazela, devidamente facilitado, também integra o dito projeto. Pobre Alencar! Sobrou-lhe o silêncio midiático, confrontado que foi ao gênio máximo de nosso panteão.
Não se está livre de consequências quando se brinca com Machado; e isso não se segue de uma mera veleidade mitificadora, mas, com efeito, da qualidade excepcional do texto machadiano. (Eis o grande erro de cálculo na concepção editorial do projeto capitaneado por Patrícia Secco.) Machado é de fato um gigante: leiam-se as páginas iniciais de virtualmente qualquer narrativa sua, e nenhuma dúvida restará. Em que pese tudo isso, a “sacralização” de sua figura como pináculo da expressão nacional contribuiu para que os ânimos se exaltassem. (Não faltaram, por outro lado, manifestações de bom senso: se o propósito é incentivar o letramento de “não-leitores”, que se ofereçam livros de outros autores menos difíceis ou, do próprio Machado, textos de menor extensão e complexidade.)

Dito isso, e feitas as reservas que se queiram à proposta ou à qualidade do projeto, sobretudo deveríamos recobrar alguma cautela, em vez de generalizar a caça às bruxas. Patrícia Secco está sendo submetida a um linchamento simbólico. Quem mandou mexer no vespeiro? Mas daí a condenar iniciativas semelhantes, já é outra patologia social.

Fico de cabelos em pé quando leio que “mais de seis mil brasileiros já assinaram a petição online que pede que o Ministério da Cultura ‘impeça a alteração das palavras originais nas obras da língua portuguesa’” (Estado de S. Paulo, 9 de maio de 2014). Estranha coincidência: isso se dá na mesma semana em que o direito à liberdade de expressão das biografias parece enfim avançar no Congresso. Os defensores da integridade que apoiaram a petição online examinaram o trabalho em questão? Se não o fizeram, não têm condições de se manifestarem tão peremptoriamente, auto-empossados guardiões da Cultura Nacional… Se na semana passada tantas mil pessoas tinham assinado a petição, amanhã serão muitas mais (acima de oito mil neste exato momento). Pergunto: quantos mil brasileiros leram Machado – ou Alencar, ou Shakespeare, ou Lobato – nos últimos doze meses?

Façam-se livros: bons, ruins, superbos, medianos, medíocres. Mas que se façam livros, que eles circulem, que se possa debater sua qualidade, e não que eles sejam segregados de antemão por ímpeto purista. Num contexto diferente, Marisa Lajolo, ao assumir há cerca de um mês a curadoria do Prêmio Jabuti, defendeu que questões culturais sejam sim polemizadas. Isso é sempre melhor do que qualquer consenso acrítico.

Voltando para o presente caso, não nos cabe dizer que este ou aquele livro – desde que não ofenda os princípios inegociáveis da democracia – tenha ou não o direito de existir… mesmo que ele seja pouco conveniente, equivocado, até (se se quiser) oportunista.
Acima de tudo: essa pulsão que se manifesta no desejo de proibir livros (!) é mais condizente com regimes totalitários do que com uma sociedade que aspira à democracia. Digo “aspira a”, e não “vive” uma democracia, por motivos óbvios. Estamos muito longe de vivermos uma democracia plena; é muito raro, no Brasil, que quem não seja membro de uma elite qualquer – de classe, de poder, de representatividade cultural – tenha os seus cincos minutos de consideração na arena pública. E olha só: isso tem a ver diretamente com a desigualdade no acesso à formação pedagógica e cultural.

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Sobre Bruno Berlendis

Gourmand: adj. 1. Gros mangeur ; Qui aime la bonne cuisine, mange par plasir.
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5 respostas para Livros : ler, julgar ou proibir? (Horizontes)

  1. fernanda de lima passamai perez disse:

    Bruno, muito boas colocações. Infelizmente, no auge da emoção, a gente adere a algumas causas sem parar e refletir. Assinei a petição e compartilhei com muita gente. No entanto, eu que também sou mais que a favor da liberdade de expressão, somente agora, com mais calma, sem paixão, pude reconhecer o meu equívoco. Bom, é assim. Às vezes, somos traídos pela paixão. abraços. fER

  2. Belas e relevantes colocações, Bruno. A mim fica a sensação de que a questão da transparência passa a ser fundamental neste caso. Como o rótulo da pacote de cigarro que adverte a quem está prestes a consumir. Ao contrário do cigarro, porém, a circulação e o consumo de substâncias impuras podem ser benéficas dentro de um certo tipo de uso e para um certo tipo de público.

    • Bruno Berlendis disse:

      Sem dúvida, falta clareza de lado a lado – pelo menos assim me parece. Doutra parte, já o dizia Sainte-Beuve: “É mesmo preciso resignar-se aos novos hábitos, à invasão da democracia literária assim como à chegada de todas as outras democracias” (“Sobre a literatura industrial”, 1839).

  3. Pingback: Quando o popular vira pop | Vivo Livro

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